A carga específica de incêndio e a análise de risco conforme a ABNT NBR 5419-2:2015

*por Hélio Eiji Sueta

Um dos parâmetros que mais influencia a análise de risco conforme a ABNT NBR 5419- 2: 2015 é o “Fator de redução rf em função de risco de incêndio ou explosão na estrutura” obtido na Tabela C.5 da parte 2 da norma. Este fator varia desde “0” quando não se tem risco de explosão nem de incêndio e vai até “1” para risco de explosão para “zonas 0, 20 e explosivos sólidos”; passando por “10-3” para risco de incêndio baixo ou risco de explosão para zonas 2 ou 22; por “10-2” para incêndio normal e por “10-1” para risco de incêndio alto ou de explosão para zonas 1 ou 21.

As definições dos locais com risco de explosão estão descritas na ABNT NBR 5419-2: 2015 nos itens 3.1.59 a 3.1.64. As definições das estruturas com risco de incêndio “baixo”, “normal” e “alto” estão nas notas 5, 6 e 7 da Tabela C.5 do item C.3 da mesma norma.

Este artigo apresenta como enquadrar as diversas estruturas em relação ao risco de incêndio. Apresenta também a Instrução Técnica Nº 14 de 2019 (Carga de incêndio nas edificações e áreas de risco) do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo.

Segundo a Nota 8 da Tabela C.5, a “Carga específica de incêndio” é a relação da energia da quantidade total do material combustível em uma estrutura e a superfície total da estrutura. Ainda segundo a ABNT NBR 5419-2: 2015, “as estruturas com alto risco de incêndio podem ser assumidas como sendo estruturas feitas de materiais combustíveis ou estruturas com coberturas feitas com materiais combustíveis ou estruturas com uma carga específica de incêndio maior que 800 MJ/m²”.

As “estruturas com um risco normal de incêndio podem ser assumidas como estruturas com uma carga específica de incêndio entre 800 MJ/m² e 400 MJ/m²” e as “estruturas com risco baixo de incêndio podem ser assumidas como estruturas com uma carga específica de incêndio menor que 400 MJ/m², ou estruturas contendo somente uma pequena quantidade de material combustível”.

A Instrução Técnica Nº 14/2019 (12 páginas) do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo ajuda bastante na escolha do tipo de risco de incêndio de uma estrutura.

Este documento tem por objetivo “estabelecer valores característicos de carga de incêndio nas edificações e áreas de risco, conforme a ocupação e uso específico”. Como principais definições podemos citar: “Carga de incêndio é a soma das energias caloríficas possíveis de serem liberadas pela combustão completa de todos os materiais combustíveis contidos em um espaço, inclusive, o revestimento das paredes, divisórias, pisos e tetos” e “Carga de incêndio específica é o valor da carga de incêndio dividido pela área de piso do espaço considerado, expresso em megajoules (MJ) por metro quadrado (m²)”.

O Anexo A deste documento apresenta, em quatro páginas e meia, uma tabela com as cargas de incêndio específicas por ocupação. A seguir alguns exemplos:

Estes são apenas alguns exemplos obtidos na Tabela do Anexo A. São mais de 300 tipos diferentes de ocupações, incluindo  serviços automobilísticos, serviços de saúde e industriais.

O documento IT Nº 14/2019 apresenta também o Anexo B que contém uma tabela de carga de incêndio relativa à altura de armazenamento para depósitos. Nesta tabela é possível obter o valor da carga de incêndio específica para diversos tipos de materiais em função da altura de armazenamento em metros. Como exemplo podemos citar um depósito de materiais de construção: se o armazenamento deste material for até 1 metro de altura, a carga é de 360 MJ/m², que, para fins da NBR 5419, é um risco de incêndio baixo; se for de 2 metros, 720 MJ/m², ou seja normal e acima disto seria um alto risco de incêndio pois para 4 metros a carga é de 1440 MJ/ m²; para 6 metros 2160 MJ/m², para 8 metros 2880 MJ/m² e para 10 metros 3600 MJ/m².

O documento apresenta também um Anexo C contendo um método de cálculo determinístico para o levantamento da carga de incêndio específica. Estes valores, principalmente para as edificações destinadas a explosivos e ocupações especiais, podem ser calculados pela seguinte expressão:

Em que:

qfi – é o valor da carga de incêndio específica, em MJ/m² de área de piso considerado para o cálculo.

Mi – é a massa total de cada componente (i) do material combustível, em quilograma. Note que este valor não pode ser excedido durante a vida útil da edificação exceto quando houver alteração de ocupação onde, neste caso, o parâmetro deve ser reavaliado.

Hi – é o potencial calorífico de cada componente do material combustível, em MJ por quilograma, conforme uma Tabela (C.1) – Valores de referência – potencial calorífico específico.

Af – é a área do piso considerado para o cálculo, em m².

Este Anexo C contém a Tabela C.1 com diversos tipos de material e o respectivo potencial calorífico.

O Anexo D da IT 14/2019 apresenta uma planilha para cálculo da carga de incêndio específica. A seguir vamos apresentar um exemplo hipotético.

Consideremos um galpão com uma área de 1200 m², contendo 3000 kg de acetileno, 5000 kg álcool etílico, 8000 kg de hexano e 5000 kg de parafina.

  • Total de potencial calorífico da área considerada para o cálculo = 873.000 MJ Área considerada para o cálculo = 1200 m²
  • Carga de incêndio específica = 727,5 MJ/m²

Neste caso, para fins da análise de risco conforme a ABNT NBR 5419-2: 2015, pode-se utilizar  um risco normal de incêndio  ou, pela proximidade da faixa superior (800 MJ/m²) em casos onde se quer estar com uma margem de segurança maior, pode-se considerar um alto risco de incêndio, principalmente por se tratar de materiais combustíveis.

Note que o Fator de redução rf é um fator que aparece no numerador das equações utilizadas para o cálculo de risco, desta forma, uma mudança de parâmetro pode significar em um aumento ou diminuição em 10 vezes ou mais, o resultado.

Concluindo, a IT 14/2019 do Corpo de Bombeiros de São Paulo ajuda em muito a definição dos parâmetros relacionados ao risco de incêndio. É possível obter este documento em uma busca na internet.

A versão 2020 da Planilha TUPAN desenvolvida pelo Instituto de Energia e Ambiente da USP irá considerar este documento e tornar ainda mais fácil a consideração deste parâmetro.


Hélio Eiji Sueta é chefe adjunto da Divisão Científica de Planejamento, Análise e Desenvolvimento Energético do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo.

Atualizado em 7 de junho de 2021 por

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