Confiabilidade de instalações elétricas versus Ética

A confiabilidade de instalações elétricas depende de vários  aspectos. Em especial, precisamos dimensionar e especificar os equipamentos e a tipologia de  uma  instalação  elétrica   baseada no uso que se dará a ela, duração do período que uma falha pode interromper o funcionamento desta instalação (chamado de período de reparo) e, principalmente, a quantidade de falhas aceitável por intervalo de tempo, conhecida sigla em inglês como MTBF – Mean Time Between Failures, ou, em português, período médio entre falhas. Definido o uso final desta instalação, é então preciso avaliar o projeto executivo, qualidade e características dos materiais e profissionais necessários para que essa instalação atenda aos requisitos exigíveis, ou seja, exigências normativas desse tipo de instalação, sofisticação  e  nível de automação exigido, período de reparo (necessidade de redundâncias para que não haja interrupção do funcionamento) e o período médio entre falhas. Tecnicamente, chegamos então à estrutura  completa de tudo aquilo que é necessário para se implementar a referida instalação; então, finalmente, chega a etapa de custos.

É na análise dos custos que se inicia o problema. Como todos sabemos, a pressão por redução de custos implica em prazos de instalação cada vez mais exíguos (sim, prazos interferem nos custos, pois quanto menor o tempo de mobilização de um canteiro, menor o custo dele), redução dos “critérios documentais” (menores exigências quanto a controle de responsabilidades (ART para profissionais do sistema Confea-CREA, RRT para profissionais do CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo e TRT para profissionais do CFT – Conselho Federal dos Técnicos Industriais, entre outros), documentos, habilitação e qualificação de profissionais e empresas para trabalhos especiais como NR-10 – SEGURANÇA EM INSTALAÇÕES E SERVIÇOS EM ELETRICIDADE, NR-35 – TRABALHO EM ALTURA, entre tantas outras.

É sim, a pressão sobre os  custos  recai diretamente sobre a qualidade e a confiabilidade de instalações elétricas. Acompanhe meu raciocínio: o projeto executivo exige que um certo tipo de disjuntor seja utilizado para uma dada aplicação, com diversos acessórios de controle e proteção sofisticados (por exemplo, um disjuntor com proteção de fuga à terra incorporado ao relé), de modo a proteger a instalação e aquela carga específica para uma modalidade presumida de defeito, por exemplo, um curto-circuito de alta impedância. Todos sabemos que esse disjuntor é consideravelmente mais caro que um termomagnético, visto que este não tem sensibilidade para cumprir a função exigida naquele ponto da instalação. Entretanto, sob a pressão dos custos, se o cliente final (dono da instalação) não tiver um bom engenheiro contratado para fiscalizar a implantação, pode ocorrer que a empresa instaladora ou contratante dos equipamentos negligencie o projeto e autorize a substituição do disjuntor ora equipado com a função “G” por um termomagnético padrão. Tantas vezes, já ouvi: pode mudar, sim, funciona igual! Bom, que funciona igual todos sabemos, o problema é quando ele tiver que ser sensibilizado para aquele defeito anteriormente mencionado, que ele não irá enxergar e a instalação ficará então sob risco de incêndio. Essa negligência é muito comum, sob a aposta de que “esse defeito é muito raro”! Pois é…

Bom, deixo aqui a pergunta provocativa: o problema é a pressão interminável sobre os custos ou a ética infinitesimal de alguns profissionais?

A resposta passa pelo caminho do bom senso: existe sempre um preço mínimo para uma exigência. Abaixo dele, sempre existe um senão…

Boa leitura!

Atualizado em 28 de julho de 2021 por Simone Vaiser

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