E a chuva continua, ainda bem!

Edição 111 – Abril 2015
Por João José Barrico de Souza

Recorremos a este assunto meteorológico, mesmo já tendo sido tratado em edições anteriores. No entanto, antes de falar da chuva (ou de seus efeitos), é preciso lembrar que dividimos as medidas de proteção contra choques elétricos em dois grandes grupos: as medidas de proteção contra os contatos diretos (hoje chamadas de “Proteção básica”) e as medidas de proteção contra os contatos indiretos (hoje chamadas de “Proteção supletiva”).

Em linhas bem gerais, a primeira – proteção básica – cuida para que as pessoas não sejam vítimas da eletricidade por entrar em contato com partes energizadas em condições normais de operação, o que inclui tocar com as mãos os condutores energizados, os barramentos de quadros elétricos, os condutores nus das redes aéreas, por meio de vergalhões de ferro em construção civil, o contato com rede de distribuição no furto de energia e outros mais que alimentam as estatísticas da Abracopel (associação de conscientização para os perigos da eletricidade).

Já a proteção supletiva visa proteger as pessoas contra os efeitos da eletricidade quando ocorre defeito nas instalações ou equipamentos, fazendo com que partes condutoras acessíveis, estranhas à instalação e que em condições normais de operação não ofereceriam risco algum, passem a ser perigosas, por estarem momentaneamente energizadas.

Ora, as instalações de consumo de eletricidade, domésticas, comerciais e industriais devem obedecer às normas vigentes (técnicas e regulamentadoras) e o seu descumprimento responsabiliza juridicamente civil e criminalmente o proprietário e o gestor da instalação, presumido conhecedor do risco de seu empreendimento.

Voltemos às chuvas. De fato, precisamos de chuva e muita chuva para garantir o nosso suprimento de energia por meio das nossas hidrelétricas, para garantir água para o consumo, a produção agrícola e tudo mais. Esperada e de maneira previsível, sabemos que a chuva vem e, irregular, pode atingir nossa rede aérea de distribuição de energia, partindo condutores, os quais caem no solo, dando origem à ocorrência conhecida como “fio partido”.


Figura 1 – Exemplo de fio partido.

Quando a ocorrência fica apenas no desconforto da falta de energia e, por sorte, depois de algumas horas, o suprimento for restabelecido, a conversa se resume à discussão da qualidade dos serviços e dos indicadores oficiais informados à Aneel (DEC e FEC). Quando, no entanto, a ocorrência resulta em fatos graves, como a morte, aparecem muitos comentários e interpretações que tentam explicar ou justificar o fato, e tome explicações:

“Como é que poderia ocorrer o incêndio do carro, se o pneu é de borracha?”; “Ah! mas agora os pneus têm malha de aço e não isolam mais!”; “Também o pneu está molhado e isso faz passar a corrente!”; “Ora, mas jamais a pessoa deveria sair do carro em que o cabo caiu, porque dentro do carro ele estava numa gaiola de Faraday”; “Ah! a pessoa fica nervosa vendo sair faísca do cabo e não raciocina”.

Calma lá! A “pessoa”, assim entendida a vítima, não tem como obrigação entender de eletricidade e nem se pode esperar dela um comportamento ou reação calculada, pensada, em uma situação de perigo, até porque com eletricidade o tempo se mede em milissegundos. Qualquer medida de proteção ou segurança deve anteceder o evento, devem ser preventivas.

Voltando à origem, o cabo partiu e o circuito não desligou em tempo hábil!


Figura 2 – Fio partido com curto-circuito.

“Fio partido” é ocorrência esperada e quem explora o negócio, o dono da instalação, sabe disso e desde que assumiu o risco de seu empreendimento, de seu negócio, sabe muito bem também que é esperado e exigido que haja dispositivos de proteção e seccionamento automático que devem atuar desligando o circuito por conta da fuga à terra determinada pelo condutor partido. E se isso não acontecer em tempo hábil é porque alguma coisa não está funcionando a contento, colocando em risco a vida das pessoas. Parece-me que a isso se dá o nome de “dolo eventual”.

É preciso levar as coisas com mais seriedade e responsabilidade. A segurança se faz com prevenção.

Atualizado em 27 de julho de 2021 por Simone Vaiser

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