Energia com qualidade

Atualizado em 21 de julho de 2021 por Simone Vaiser

Por que “eficiência energética”?

As lições mais difíceis são aprendidas com muito esforço e suor e a história do homem tem nos mostrado isso. Da mesma forma ocorre com a prática da eficiência energética que, nos tempos modernos, aparece como umas das melhores alternativas desde o dilema do racionamento mundial do petróleo, que se iniciou em 1973.

As perspectivas de energia barata e abundante tinham acabado e aquilo que era apenas uma possibilidade de ganho adicional de práticas de redução de custos operacionais eventuais passou a ser necessidade de sobrevivência (seja financeira, operacional ou ambiental). Os homens, as organizações, os governos aprendiam na “dor” mais uma nova lição.

Nestes quase 40 anos, o assunto foi fartamente explorado e desenvolvido, contudo, não concluído. Os interesses econômicos fazem com que o consumo de energia derivada de combustíveis fósseis seja mantido em níveis elevados nas matrizes energéticas sem restrições, mesmo causando uma panacéia mundial por sua relação direta com o aquecimento global.

Pois bem, o homem então busca novas formas de geração de energia por meio de fontes limpas (eólica, solar, hidráulica, marés, biomassa, etc.). Convenhamos, limpas, mas nem tanto ecológicas, uma vez que a maior parte delas tem algum “senão” sob o ponto de vista ambiental. Ainda as novas usinas hidrelétricas no norte do Brasil, objeto de acaloradas discussões sobre seus licenciamentos ambientais, respondem pela geração de energia suficiente para manter a oferta de alguns poucos anos do crescimento econômico projetado.

A única “fonte de energia” absolutamente limpa, sustentável e que não gera resíduos nem “efeitos colaterais” é a eficiência energética, que tem sido tratada por diversos autores como uma usina virtual, uma geração virtual de energia. Esta “usina” traz consigo alguns pontos para análise e reflexão, pois:

• Pode ser obtida nos processos de geração, transmissão, distribuição e utilização de energia;

• A perseguição e a busca contínua por eficiência energética em processos, equipamentos e instalações têm mostrado uma serie de interessantes consequências, pois outras fontes de economia são acrescidas aumentando a produtividade por reduções de custos que são encontradas;

• Equipamentos mais eficientes do ponto de vista de consumo de energia costumam utilizar menos recursos do meio ambiente para sua fabricação e manutenção, também geram menor quantidade de resíduos durante e ao final de sua vida útil, quando serão reciclados;

• Tais verdades são constatadas por empresas que praticam projetos responsáveis de eficiência energética e inserem em suas culturas estes conceitos e práticas.

Mas por que nem todos (empresas, grupos, condomínios, concessionárias, usuários, entre outros) se engajam de uma forma positiva e determinada nesta busca? Este é um desafio que merece ao menos algumas reflexões e não tem resposta pronta.

• A primeira é a formulação simplista e incompleta da equação de custo-benefício ou retorno sobre o investimento e já comentada nesta coluna anteriormente, em que benefícios – apesar de secundários, mas não menos importantes – não são quantificados e agregados aos benefícios primários, por absoluta falta de informação ou conhecimento.

• Projetos anteriores com resultados diferentes daqueles inicialmente projetados e sem a devida consolidação e discussão dos pontos fortes e fracos desmotivam os envolvidos a persistirem no objetivo inicial e o assunto passa a ser encarado como aventura, não estando ninguém disposto a repetir a “façanha”.

• Finalmente a pergunta mais óbvia e intrigante: “será que as tentativas anteriores foram feitas com equipes e pessoas da área?”. Afinal, eficiência energética é um assunto específico e com todas as suas particularidades, assim como outras tantas matérias e técnicas também o são!

Será que é o eletricista industrial que efetua a solda a ponto no processo saberia operar o forno de indução? Será que o técnico de instalações hidráulicas operaria bem as caldeiras? O gerente de TI de um grande data center saberia operar e manter adequadamente um sistema de geração através de fonte de energia alternativa para o próprio data center? Saberia diagnosticar as causas de um mal funcionamento? A questão é sintomática. Apesar das proximidades das especialidades, um avanço nas atribuições sem um mínimo de critério leva toda a situação para um fracasso, senão para um acidente ou, no mínimo, prejuízo. O treinamento de equipes que possam buscar, entender e acompanhar a implantação de projetos de eficiência energética pode ser o início deste caminho.

A integração de soluções voltadas para as boas práticas de eficiência energética, sendo elas de fonte elétrica, térmica ou outra, é atividade para equipes que, mesmo oriundas das áreas industriais ou de instalações, aprenderam a lidar com o assunto.

Está claro que os papéis dessas atividades devem estar claramente mapeados com os órgãos do governo definindo as políticas públicas, e eles próprios atentos ao grau de desperdício de energia em suas próprias instalações e repartições; os bancos e fundos de desenvolvimento dirigindo créditos específicos ao segmento; as concessionárias com suas perdas técnicas (outras nem tanto) e novas fontes de energia limpa; as Empresas de Serviço de Conservação de Energia ou de Eficiência Energética (Escos) que devem estar atentas ao estado da arte e ao mercado e se apresentarem de forma competente quando chamadas e; finalmente, o ator principal, as empresas usuárias de energia, onde esta longa e perdulária cadeia da energia termina.

Eficiência energética não se trata de uma disciplina em si mesma, mas de uma atividade de interatividade às diversas disciplinas (multidisciplinar). O sucesso se alcança com o uso adequado do conhecimento e busca de relação correta e justa entre todos os envolvidos.

Como o grau de sucesso é “quantificável” e comparável à expectativa inicial, ou base inicial, não há espaços para oportunistas de plantão, pois a seriedade e a honestidade devem prevalecer de ponta a ponta. Assim esperamos.


Colaboração e revisão de Rodrigo Aguiar e Armando Ricardi, da diretoria da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco).

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