Telegestão de iluminação pública e IoT nas cidades inteligentes

A Internet das Coisas (IoT) surge como um tema relacionado às cidades inteligentes, uma vez que compreende uma rede de sensores e atuadores conectados à internet. Informações relevantes poderão ser fornecidas através da inferência sobre a grande massa de dados gerada por estes dispositivos, conhecida como Big Data, agregando-se processos de aprendizado de máquina e inteligência artificial.

As cidades inteligentes, apoiadas sobre tecnologias em IoT, trarão uma melhoria para a qualidade de vida dos cidadãos, uma vez que conduzirão a soluções para problemas urbanos, por meio de dados coletados no campo de forma ágil e econômica. Como exemplo, poderão ser realizadas análises sísmicas ou sobre parâmetros ambientais, e mesmo o cruzamento de diferentes informações para a tomada de decisão.

A iluminação pública surge como uma plataforma de conectividade para as cidades inteligentes, dado ser uma infraestrutura amplamente difundida pelo ecossistema urbano, através da implementação de dispositivos para o seu gerenciamento remoto (telegestão), também categorizados como IoT. Assim, cada elemento instalado na luminária poderá transformar-se em um ponto de ligação para outros elementos de IoT. Com a migração para a tecnologia Led, as luminárias passam a ser dotadas de sistemas eletrônicos, e ao serem monitorizadas e controladas pela telegestão, passam a servir como uma plataforma para outros serviços.

Através da malha de comunicações formada pela telegestão em iluminação, as luminárias exercerão outras funções, além de iluminar. Passarão a se autogerir, fornecendo informações sobre o seu estado, consumo e adotando perfis de funcionamento que conduzirão a uma economia relevante de energia elétrica. Muitas aplicações poderão ser implementadas sobre esta rede de comunicações, por exemplo, informações sobre trânsito e sobre vagas de estacionamento.

Recentemente, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) publicou o “Manual de Instruções do Artigo 26 da Resolução Normativa Nº 414/2010”. Este ato surge como um catalizador para a adoção dos dispositivos de telegestão em iluminação pública, pois determina as formas como a medição do consumo realizada por estes deverão ser consideradas. Assim, todo a economia gerada pela telegestão passa a ser efetiva, o que até então não era possível.

Prevê-se que a adoção da telegestão na iluminação pública trará vantagens operacionais e econômicas para as concessionárias de energia elétrica também. Hoje, a grande maioria dos circuitos de iluminação tem o seu consumo estimado e não medido. Assim, para que as concessionárias de energia possam cumprir critérios de tarifação por medição, deverão investir na modernização e transformação dos circuitos estimados em medidos, o que será dispendioso. Os dispositivos de telegestão serão fundamentais neste processo de mudança de paradigma de tarifação, uma vez que poderão ser utilizados como medidores para o consumo de energia, não necessitando de infraestrutura física, pois utilizam comunicações sem fios. Para além da medição do consumo, poderão fornecer dados adicionais a respeito da qualidade da energia elétrica fornecida, nomeadamente, quanto à caracterização da tensão elétrica em regime permanente em determinado ponto.

Alguns desafios surgem com a adoção das tecnologias para a internet das coisas, quando esta deve ser entendida como uma plataforma agregadora para as cidades inteligentes. Cada fabricante utiliza uma determinada tecnologia para a conectividade, conjugada com protocolos proprietários nas camadas aplicacionais, ou seja, a diversidade acaba por criar um elemento dificultador para os especificadores de projetos, na medida que estes desejem que os diversos dispositivos, de uma mesma família e de diferentes fabricantes, sejam capazes de “conversarem” entre si.

Atualmente, existem diversas tecnologias padronizadas para conexão de dispositivos numa rede de campo, estando o 6LowPAN, o LoRaWAN e o NB-IoT dentre as mais utilizadas. Contudo, estas não garantem a interoperabilidade entre dispositivos de uma mesma classe e diversos fabricantes. Assim, torna-se necessário que as empresas vocacionadas para o IoT aplicado às cidades inteligentes se associem, no sentido da criação de um padrão que garanta a interoperabilidade dentro da rede de campo. Hoje, os equipamentos se interconectam através de protocolos de rede padrão, porém, não se compreendem. Seriam como indivíduos que falam idiomas diferentes e que se encontram conectados pela internet.

Por fim, entende-se que, com o esforço conjunto dos diversos fabricantes na busca de uma padronização das comunicações para as cidades, caminharemos para um novo conceito derivado do IoT – A internet das Cidades ou IoCities.

 

*Claudio Monteiro é graduado em Engenharia Eletrotécnica pela Universidade de Aveiro, com especialização em Redes de Comunicações pela mesma instituição. Atualmente, é diretor de tecnologia e cofundador da Modulus One.

Atualizado em 11 de junho de 2021 por Cláudio Monteiro

Política de Privacidade
When you visit our website, it may store information through your browser from specific services, usually in form of cookies. Here you can change your privacy preferences. Please note that blocking some types of cookies may impact your experience on our website and the services we offer.
O Setor Elétrico